A HOMENAGEM

O dia dos pais se aproximava rápido. Rafael, um adolescente, chamou seus irmãos Cíntia, de nove anos, e o caçulinha, Lucas, de quatro, para fazerem uma homenagem ao pai.

– Sabiam que dia dos pais é domingo? Vou fazer uma homenagem para nosso pai hoje, quando chegar do trabalho, porque ele vai viajar e…

Rafael se irrita quando Lucas o interrompe: – O que é omegeanagem?…

– É ho-me-na-gem! – corrigiu Cíntia. – É uma festa que vamos fazer pro papai. Eu quero cantar uma música que aprendi na escola, é assim…

– Não, não! Você é muito desafinada! Papai não vai gostar! – diz Rafael. Já preparei tudo. Vai ser assim: primeiro, vou ler um texto que tirei na internet.

 – Eu também quelo ler! – disse Lucas, entusiasmadíssimo com a idéia.

– Não, Lucas, você não sabe ler! – responde Rafael.

– Luquinha, eu vou te ensinar um versinho pra você falar pro papai, ta bem? – diz Cíntia, afagando os cabelos do irmão.

– Não, Cíntia, não inventa! Ele fala tudo errado e vai gaguejar! Vai ser assim: eu vou ler um texto que tirei na internet, depois vou cantar e tocar uma música que aprendi na aula de violão. Depois entrego o presente.

– Presente? Que presente? Eu amo dar presente! Posso dar dois reais pra ajudar a comprar! – diz Cíntia euforicamente.

Rafael balança a cabeça negativamente:

– Não precisa! Já comprei um presente muito legal com o dinheiro que estou juntando há um tempão.  Eu escrevo o nome de vocês no cartão que eu fiz.

– Eu também quelo dar um pesente po papai!… – diz Lucas, choramingando – Eu tenho dinhelo no meu cofinho

– Não vai comprar nada, aquelas moedinhas não dão pra nada! Papai merece o melhor! Ele tem muito bom gosto e não vai gostar de presentes baratos. Quando ele chegar eu chamo vocês. – encerra Rafael, retirando-se.

À noite, quando o pai chegou, os três irmãos correram para a sala. Tudo ocorreu como Rafael planejara e o pai ficou emocionado em ver o filho tocando e cantando tão bem. Mas notou que os outros irmãos não estavam contentes.

– O que houve Cíntia? Por que está amuada? E você Luquinha, não vai me dar um abraço?

Lucas caminha tímido para os braços do pai:

– Eu quelia te dar um pesente com o dinhelo do cofinho

– Que bom! Cadê meu presente?

– O Fael não deixou eu compá, por que não dá compá um pesente calo

Cíntia também se aproxima do pai, meio sem graça:

– Eu também queria te dar um presente, mas o Rafa também disse que meu dinheiro é pouco… E queria cantar uma música, mas o Rafa disse…

– Rafael, vem aqui, filho. O que te fez pensar que eu não me agradaria da homenagem de seus irmãos? Eu conheço vocês muito bem e sei as qualidades e também as limitações de cada um. Eu amo vocês como são. Amo o jeito delicado e tímido de sua irmã se expressar. Amo o jeito espontâneo do Lucas e cada palavra errada que ele diz. O que agrada um pai não é tanto o que os filhos fazem, mas como eles fazem. Eu valorizo tudo que fazem com amor e sinceridade!

Rafael abaixou a cabeça, envergonhado, reconhecendo seu egoísmo:

– Desculpem… – balbuciou.

O pai olha com ternura para os filhos:

– Bem, agora é a vez da Cíntia e do Lucas. O que vocês querem fazer?

– Toma papai! – diz Lucas, estendendo a mãozinha. – Fica com minhas moedinhas pá compá pilulito, picolé, tudo que você quiser!

Cíntia arregala os olhos e abre um lindo sorriso:

– Eu trouxe esta flor pra você, papai. Vou cantar uma música dos pais que aprendi na escola…

E eles ficaram ali por infinitos minutos, o pai emocionado com cada gesto espontâneo de carinho dos filhos, numa deliciosa festa de amor…

O Senhor escreveu no meu coração esta história, para me ensinar que assim também os filhos de Deus querem expressar seu amor a Ele, mas são impedidos pelos “irmãos mais velhos”, pessoas que se consideram mais maduras espiritualmente e pensam que isto lhes dá poder de juiz. Ele tem me ensinado a não vetar as pessoas que desejam homenagear a Deus Pai e seu filho Jesus nas reuniões, elas devem ter oportunidade de participação, sem acepção. Muitas pessoas que procuraram Jesus foram rechaçadas, rejeitadas por homens, sobretudo pelos fariseus. Oposta foi a atitude do Senhor:

  • A adoração mais indigna para os homens foi plenamente aceita por Jesus: a de Maria de Betânia, mulher considerada pecadora – Jo. 12.
  • O homem mais rejeitado por ser visto como indigno pecador recebeu o amor incondicional de Jesus: Zaqueu – Luc. 19.
  • A menor e mais desprezada oração foi aceita por Jesus: a do coletor de impostos – Luc. 18.
  • As pessoas consideradas menos importantes, rejeitadas até pelos discípulos, receberam o colo e a bênção de Jesus: as crianças – Luc. 18.
  • O louvor considerado mais impróprio pelos religiosos foi aceito por Jesus: das crianças de Jerusalém – Mat. 21.
  • A menor oferta para os homens foi considerada por Jesus a maior em qualidade: a da viúva, que deu apenas duas moedinhas – Mar. 13.
  • A mulher condenada à morte por ser considerada a pior pecadora recebeu o perdão de Jesus: a mulher adúltera – Jo. 8.
  • Os homens considerados mais ignorantes e indignos foram cheios de sabedoria e usados pelo poder de Deus: os doze apóstolos – Atos 1 a 4.

Não me cabe julgar a competência de alguém para cantar, orar, ou qualquer outra manifestação de adoração. Julgaria segundo a aparência e a arte, mas os critérios que o Pai coloca são interiores: que o adoremos “em espírito e em verdade” (João 4:23,24). Não devemos submeter nossa adoração a julgamento humano, porque nossa platéia não são as pessoas, mas o Senhor.

Um comentário sobre “A HOMENAGEM

  1. Graças a Deus que Ele contempla nossos corações. Ele nos vê por dentro e não por fora.

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