ARRAIÁ DO BREJO ALEGRE

ARRAIÁ DO BREJO ALEGRE  (COMÉDIA)

 

PERSONAGENS:  – Hervéço (traje caipira, carrega Bíblia gigante)

Pastor Zé Máximo (traje brega, bigodão, barrigudo)

Zezin (traje brega de criança, gago, repete a última palavra das frases mais engraçadas)

          – Maria Ceisóra (traje caipira, sombrinha, um grande pão tipo bisnaga debaixo do braço)

 

CENÁRIO:  Igreja da roça (bancos ou cadeiras, púlpito, violão bem velho e um grande coador de café para recolher ofertas, tudo rústico, enfeitado com flores de plástico, toalha de plástico e microfone de sabugo de milho.). 

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 (Hervéço tira poeira dos móveis cantarolando um hino antigo pentecostal).

 

HERVEÇO – Uai, sô! Tem um tempão qui o sol arriô e o povo num chega, sô! E nem o pastô que nóis convidô pra vim pregar hoje num chegô. Uai, cadê esse povo?  (continua trabalhando).

PASTOR – A paz do Senhor, irmão! Aqui que é a Igreja Que Marcha Unida Para o Céu no Arraiá do Brejo Alegre?

HERVEÇO –  Num é, não sinhô.

PASTOR –  Puxa vida! Tem duas horas que estou procurando e não acho a bendita igreja! E que Igreja é esta?

HERVEÇO –  Esta aqui é a Igreja Unida Que Marcha Para o Céu no Arraiá do Brejo Alegre!

PASTOR –  Ah! É esta mesmo! Por que você não falou?

HERVEÇO –  Pruquê o sinhô disse Igreja Que Marcha Unida Para o Céu do Brejo Alegre e aqui é a Igreja Unida Que Marcha Para o Céu do Brejo Alegre!

PASTOR –  Tanto faz irmão, o importante é que está todo mundo marchando para o céu, não é mesmo?

HERVEÇO – Ô grória! Então ocê qui é o tar pastô que vêi visitá nóis? Pastô Zé… Zé…

PASTOR –  José Máximo. E este é meu filho, Zezinho.

ZEZIN – Pa-pa-pa-pa-z do Ssse-ssse-senhor!

PASTOR –  Como é o nome do irmão?

HERVEÇO –  Herveço! Passiô! Seis chegô bem na hora de cumeçá o curto!

PASTOR –  E onde está o pastor?

HERVEÇO –  O pastor Serjo? Foi viajá de novo com a muié. Foi lá pra Tatiaiuçu!

ZEZIN – Ta-ta-ta-ti-ti-ti-aaaaaaiuçu!

PASTOR –  Está bem! Mas o povo daqui sempre chega atrasado?

HERVEÇO –  Iiiiiii… Num vem, não… Num espera, não… Ta armando um toró! Quando chove eis num vem, não!… Se tem nuvem, num vem… entendeu? Nuvem, num vem…

PASTOR – Já entendi, irmão Herveço! Então hoje somos só nós três?

HERVEÇO – Não, nóis quatro: nóis e a irmã Maria Ceisóra…

PASTOR – A irmã Maria vem às seis horas? Mas já são sete!

HERVEÇO – Oia ela aí, ó… Passiô, irmã!

CEISORA – Passiô, irmão! Passiô, pastô! Aqui… eu só vim avisá que hoje eu vô num vim, ceis ora pra mim? Ceis ora pros meus fio, viu?

PASTOR – Nós vamos orar, sim, irmã. Quantos filhos você tem?

CEISORA – – Num tem inda não… Ceis ora pra eu arrumá, viu? Aqui, ceis ora tumbém pro meu marido, viu?

PASTOR – Nós vamos orar, sim, irmã. Como é o nome do seu marido?

CEISORA – Num sei inda não… Ceis ora pra eu arrumá, viu? Ceis ora mermo, que eu já to garrada no jejum e oração, viu? Ô pastô, dispois o sinhô vai lá em casa toma café com nóis, tem inté bulacha, oia o pão aqui, ó!… Passiô!

PASTOR – A paz do Senhor, irmã, nós vamos orar também pra você arranjar um jeito de vir no culto, viu?

     (Irmã Ceisora sai e volta de repente assustando a todos.)

HERVEÇO – Num falei, num falei? É a irmã Ceisora! Ceis ora pra mim, ceis ora pra mim…

CEISORA – Ôôô pastôôô! (gritado e estridente) Ó, Ceis ora mermo, num isqueci, viu? Amém?

ZEZIN – A-a-ane-ne-neeeeeiiiiinnn!…

PASTOR – Está bem, irmã, nós vamos orar pela senhora! Vai em paz! Bom, então já que o povo não vem… Vamos embora, a gente marca a reunião pra outro dia.

HERVEÇO – Ô, sô pastô, eu posso contá uma historinha pro sinhô?

PASTOR – Pode, irmão Herveço.

HERVEÇO – Ô grória!  Sabe o que qui é? Otro dia, lá na minha roça, tava na hora de dá comida pros anima.  Intão eu fui e enchi o coxo, num sabe? Mas eu num sei pruquê vêi só uma vaquinha cumê a ração, num sabe? Mas pruquê vêi só uma, eu num dexei de dá a ração pra ela, não, num sabe?

PASTOR – Ô irmão, já entendi. O irmão tem razão, hoje só veio você, mas não vamos deixar de fazer o culto. Então abra sua Bíblia…

HERVEÇO – Ô sô pastô, eu posso cantar um hino?

PASTOR – Ô que benção! Pode sim, irmão Herveço! O Zezin vai tocar, ele toca que é uma beleza!

     (Zezin pega o violão para afinar, mas desafina as cordas).

HERVEÇO – Ô minino, cê num vai tocá não? Vai ficá aí só fazendo barui?

ZEZIN – Ca-ca-calma, eu tô-to-to-tô aaaaafinando, se-se-senão fi-fi-fica tuuuudo eeerraaado…

     (Zezin toca tudo errado).

HERVEÇO – Ô grória! 

     “Eram cem ovêia juntas num ‘abismo’…”

PASTOR – Ô irmão, não é abismo, é aprisco!

HERVEÇO – Aaah, tá… inda bem, pruquê eu já tava com uma dó das coitada caí no abismo!… Ô grória! 

            “Era cem ovêia juntas num aprisco

Era cem ovêia, que ‘a mãe te’ cuidou

PASTOR – Ô irmão, não é “a mãe te” cuidou, é amante cuidou!

HERVEÇO – Ôôô sô pastô! Ocê qué cantá?

PASTOR – Não irmão, pode cantar à vontade.

HERVEÇO – Brigadu.

            “Era cem ovêia juntas num abismo

Era cem ovêia, que ‘a mãe te’ cuidou

Porém numa tarde, ao contá elas toda,

E fartava uma, e fartava uma,

E triste chorô… As 99… as 98… as 97… as 96… as 95… as 94… as 93…”

PASTOR – Ô, irmão, você vai contar todas?

HERVEÇO – Sabe qui é, pastô… é qui eu esqueci a musga… Ô grória! 

PASTOR – Então outro dia você canta, tem que ensaiar mais, né?

HERVEÇO – Ô minino, cê sabe tocá vaca?

ZEZIN – Sssse-sssei não, sinhô.

HERVEÇO – Cê sabe toca ovêia?

ZEZIN – Sssse-sssei não, sinhô.

HERVEÇO – Cê sabe tocá galinha?

ZEZIN – Ah! Ga-ga-ga-linha? Sssse-sssei não, sinhô.

HERVEÇO – Eu sabia! Ocê num sabe tocá é nada!…

ZEZIN – A-a-ane-ne-neeeeeiiiiinnn!…

PASTOR – Amém, irmãos? Então abra sua Bíblia em Lucas capítulo 15, onde se encontra a história da ovelha perdida. É uma pequena história, mas contém um grande ensinamento…

 

(O pastor começa a pregar com bastante entusiasmo. Ele abaixa o tom de voz e fica gesticulando, enquanto alguém passa com a placa: “DUAS HORAS DEPOIS…”. Herveço e Zezin cochilam.)

 

PASTOR – Então, este é o resumo do Apocalipse, um livro de grande importância para entendermos as coisas futuras. Amém? (O pastor grita amém e todos acordam assustados).

HERVEÇO – Ô, pastô, eu posso contá outra historinha pro sinhô?

PASTOR – O irmão vai dar um testemunho? Que bênção, pode sim!

HERVEÇO – Isso mermo, um tristimunho! Ô grória!  Sabe o que qui é? Otro dia, lá na minha roça, tava na hora de dá comida pros animar. Intão eu fui e enchiiii o coxo, num sabe? Mas eu num sei pruquê vêi só uma vaquinha cumê a ração, num sabe? Mas pruquê vêi só uma, eu num dexei de dá a ração pra ela, não, num sabe?

PASTOR – Sei irmão, você já contou esta história!

HERVEÇO – É, mas eu num contei o finar… É que, vêi só uma vaquinha, mas eu num fiz ela cumê tudo sozinha não, coitada!…

PASTOR – Éé… é… ta bem irmão, você está certo, então vamos encerrar o culto…

HERVEÇO – Ôôô, pastô! Cê num vai tirá dizmo e oferta?

PASTOR – Ah, claro, irmão, isto é muito importante, não podemos esquecer! Bem, então o irmão que trouxe seu dízimo e oferta pode trazer agora…

HERVEÇO – Ô grória!  Hehehehe!

 

     (Herveço pega um coador de café para recolher ofertas e ficam em silêncio, um esperando pelo outro. Zezin faz um fundo musical ou canta uma música pentecostal. Ninguém se move).

 

PASTOR – Uai, irmão, pensei que você queria entregar o dízimo!

HERVEÇO – Uai, sô pastô, pensei que ocê queria entregá uma oferta! Hoje eu vim disprivinido…

     (Irmã Ceisora chega de repente assustando a todos. Traz um ovo embrulhado em num monte de jornais.)

CEISORA – Ôôô pastôôô! (gritado e estridente) Eu si isquici de pagá o dismo, num sabe? Taqui, ó!

PASTOR – Uai, irmã! Mas é um ovo?

ZEZIN – Um o-o-o-oooovo-vo-vooo?

CEISORA – Craro! Ceis da cidade num conheci ovo, não? É da Chiquinha, a minha galinha de instimação, saaaabe? Ela botô deiz ovo, intaum eu troxe o dismo. Num ta certo?

PASTOR – Está certo, irmã, está certo… Quem é o tesoureiro?

HERVEÇO – Sou eu mermo, sô pasto!

PASTOR – Toma aqui o dízimo da irmã. Bem, então vamos embora. Onde eu vou ficar hospedado?

HERVEÇO – Ara, num sei que qui é isso, não… só sei que cêis vai pousá lá em casa!… Minha muié preparou um assado rechiado pra nóis… Ah, sô pasto, tava isquecendo de uma coisa… Aqui na Igreja Que Marcha Unida Para o Céu no Arraiá do Brejo Alegre o pregador num sai sem oferta não! Nois é fiel! Hehehehe!

PASTOR – Que bênção, irmão! Eu estou passando umas lutas financeiras, estou precisando mesmo de provisão e… (Herveço entrega o ovo) Que isso?

HERVEÇO – Ué, sô pastô, é a oferta pro sinhô! Tudo que nóis recebeu hoje é tudiiiiiinho seu! Ô grória, heim? Hehehehe!

PASTOR – Amém, irmão, amém! Estou faminto, vamos jantar! É de porco ou de boi?

HERVEÇO – É de galinha mermo! Aqui na Igreja Que Marcha Unida Para o Céu no Arraiá do Brejo Alegre nunca recebemo ovo de porco nem de boi, não!

PASTOR – Nããão! Eu estou falando do assado recheado!… É de porco ou de boi?

HERVEÇO – Mió, muuuuiiiito mió!

PASTOR – Ô glória!

HERVEÇO – É muito mio, é assado de abobrinha rechiada de jiló! Ô GRÓRIA!!!

PASTOR – É hoje que vou fazer jejum…

HERVEÇO – Ô grória! Hehehehe!

(Vão saindo e falando).

ZEZIN – Ô pa-pa-paiê, eeeeu na-não gooo-gosto de ji-ji-jilò, nã-nãão! A-a-ane-ne-neeeeeiiiiinnn!…

PASTOR – Cala a boca, menino! Jesus disse que “no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci”… E nós vamos vencer essa provação também!… (Vira para a platéia) CEIS ORA POR NÓIS! Ô GRÓRIA! (pega na mão do Zezin e sai arrastando-o).

 

 

FIM

 

Dicas: – O ovo deve ser cozido por segurança. Se conseguir um pintinho para usar ao invés do ovo ficará ainda mais engraçado.

– A música “Cem ovelhas” foi gravada pelo cantor Luís de Carvalho.

– Adaptar os nomes dos personagens para o de pessoas locais.

 

(Texto desenvolvido a partir da piada das vaquinhas).