ÁGUAS PROFUNDAS

          Era o dia mais quente desde o início do verão. Rafael e Cíntia chegam da praia, carregando o equipamento de mergulho, bastante suados. Moravam a apenas três quarteirões do mar, mas o sol estava muito forte. Rafael estava feliz, divertira bastante. Cíntia estava visivelmente chateada.

          – Pai! – exclama Rafael. – Hoje fiz mergulhos incríveis! Cada vez que mergulho fico mais apaixonado pelo mar! Já decidi, vou ser oceanógrafo!

          – Que bom filho… Sabia que ia gostar! Cíntia, você não gostou do mergulho?

          – Que mergulho? Rafael mergulhou sozinho o tempo todo!

          – Não acredito que você fez isto, Rafael! Eu comprei estes equipamentos caros para os dois, mediante a sua promessa de ensinar sua irmã!

          – Eu vou ensinar da próxima vez, pai. É que hoje eu precisava conhecer um novo recife, e a Cíntia iria me atrapalhar… Já falei que é só ela me seguir, mas ela morre de medo até de entrar na água!

          – Toda semana ele promete que vai me ajudar, mas me deixa esperando na areia e só volta na hora de ir embora! – desabafa Cíntia.

          – Puxa, Rafael! Você tem dezessete anos e ela só tem nove! Você tem que diminuir seu ritmo ou sua irmã não vai conseguir te acompanhar! Primeiro você tem que ajudá-la a perder o medo da água lá no raso, e aos poucos vai levando-a aos lugares mais fundos, sempre segurando a mão dela. Até que ela consiga mergulhar sem ajuda.

          – Mas assim eu nunca vou sair da primeira fase!… – resmunga Rafael.

          – Calma! Você poderá mergulhar em águas profundas quando estiver sozinho ou em quando em companhia de mergulhadores experientes como você.

          – Tudo bem… Você tem razão… – diz Rafael, cabisbaixo. – Eu não queria ser egoísta, mas não tive paciência para acompanhar o ritmo dela. Perdão irmãzinha, isto não vai acontecer de novo, ta?

          Cíntia não responde. O enorme sorriso em seu rosto responde por ela.

 

           O Senhor escreveu no meu coração esta história, para me ensinar que Deus tem muitos filhos e estes se encontram em diferentes estágios de maturidade espiritual, portanto os irmãos “mais velhos” precisam compreender as limitações dos mais novos e ajudá-los a crescer enquanto adoradores.

           O apóstolo Paulo diz aos seus leitores: “Quanto a isso, temos muito que dizer, coisas difíceis de explicar, porque vocês se tornaram lentos para aprender. Embora a esta altura já devessem ser mestres, vocês precisam de alguém que lhes ensine novamente os princípios elementares da palavra de Deus. Estão precisando de leite, e não de alimento sólido!” (Hebreus 5:11,12). Ele lamenta estar impossibilitado de aprofundar no ensino da Palavra a um grupo de cristãos, devido ao lento crescimento espiritual deles. E ensina claramente que os mais maduros precisam desacelerar quando necessário e caminhar junto com os irmãos mais novos, e não deixar os “caçulas” pra trás.

           Também na adoração deve ser assim. Quando alguém lidera a ministração do louvor em um grupo não homogêneo, deve estar atento aos que não estão conseguindo caminhar junto. Tenho bastante experiência como líder de louvor e sei que não é fácil diminuir o ritmo quando o que mais desejamos é mergulhar em águas profundas. Porém o Senhor nos ensina: “o amor é paciente, é benigno… não busca seus próprios interesses” (1 Cor. 13). O amor espera o tempo do outro. O melhor exemplo é Jesus, é incalculável o quanto ele desceu de sua glória para nos dar a mão e nos ajudar a crescer a partir do zero, no nosso ritmo.

          Assim como na visão que teve o profeta Ezequiel quando foi levado a entrar no rio que fluía do santuário a partir da parte mais rasa, que lhe molhou primeiro o tornozelo, depois o joelho, depois a cintura, chegando a águas tão profundas que precisaria nadar. Também é gradualmente, começando da parte rasa, que o líder de louvor deverá conduzir os adoradores, sempre os estimulando a desejar mergulhar cada vez mais fundo em cada encontro da Noiva com o seu Amado Jesus. Porém um mergulhador precisa ser experiente para que esteja apto a ensinar outros a mergulhar. A experiência dos mergulhos mais profundos geralmente alcançamos quando a sós, em íntima comunhão com Deus. É quando estamos livres de preocupação com outras pessoas, focados inteiramente no alvo da nossa adoração, o nosso Senhor!

 Leila Lança

Anúncios

A HOMENAGEM

O dia dos pais se aproximava rápido. Rafael, um adolescente, chamou seus irmãos Cíntia, de nove anos, e o caçulinha, Lucas, de quatro, para fazerem uma homenagem ao pai.

– Sabiam que dia dos pais é domingo? Vou fazer uma homenagem para nosso pai hoje, quando chegar do trabalho, porque ele vai viajar e…

Rafael se irrita quando Lucas o interrompe: – O que é omegeanagem?…

– É ho-me-na-gem! – corrigiu Cíntia. – É uma festa que vamos fazer pro papai. Eu quero cantar uma música que aprendi na escola, é assim…

– Não, não! Você é muito desafinada! Papai não vai gostar! – diz Rafael. Já preparei tudo. Vai ser assim: primeiro, vou ler um texto que tirei na internet.

 – Eu também quelo ler! – disse Lucas, entusiasmadíssimo com a idéia.

– Não, Lucas, você não sabe ler! – responde Rafael.

– Luquinha, eu vou te ensinar um versinho pra você falar pro papai, ta bem? – diz Cíntia, afagando os cabelos do irmão.

– Não, Cíntia, não inventa! Ele fala tudo errado e vai gaguejar! Vai ser assim: eu vou ler um texto que tirei na internet, depois vou cantar e tocar uma música que aprendi na aula de violão. Depois entrego o presente.

– Presente? Que presente? Eu amo dar presente! Posso dar dois reais pra ajudar a comprar! – diz Cíntia euforicamente.

Rafael balança a cabeça negativamente:

– Não precisa! Já comprei um presente muito legal com o dinheiro que estou juntando há um tempão.  Eu escrevo o nome de vocês no cartão que eu fiz.

– Eu também quelo dar um pesente po papai!… – diz Lucas, choramingando – Eu tenho dinhelo no meu cofinho

– Não vai comprar nada, aquelas moedinhas não dão pra nada! Papai merece o melhor! Ele tem muito bom gosto e não vai gostar de presentes baratos. Quando ele chegar eu chamo vocês. – encerra Rafael, retirando-se.

À noite, quando o pai chegou, os três irmãos correram para a sala. Tudo ocorreu como Rafael planejara e o pai ficou emocionado em ver o filho tocando e cantando tão bem. Mas notou que os outros irmãos não estavam contentes.

– O que houve Cíntia? Por que está amuada? E você Luquinha, não vai me dar um abraço?

Lucas caminha tímido para os braços do pai:

– Eu quelia te dar um pesente com o dinhelo do cofinho

– Que bom! Cadê meu presente?

– O Fael não deixou eu compá, por que não dá compá um pesente calo

Cíntia também se aproxima do pai, meio sem graça:

– Eu também queria te dar um presente, mas o Rafa também disse que meu dinheiro é pouco… E queria cantar uma música, mas o Rafa disse…

– Rafael, vem aqui, filho. O que te fez pensar que eu não me agradaria da homenagem de seus irmãos? Eu conheço vocês muito bem e sei as qualidades e também as limitações de cada um. Eu amo vocês como são. Amo o jeito delicado e tímido de sua irmã se expressar. Amo o jeito espontâneo do Lucas e cada palavra errada que ele diz. O que agrada um pai não é tanto o que os filhos fazem, mas como eles fazem. Eu valorizo tudo que fazem com amor e sinceridade!

Rafael abaixou a cabeça, envergonhado, reconhecendo seu egoísmo:

– Desculpem… – balbuciou.

O pai olha com ternura para os filhos:

– Bem, agora é a vez da Cíntia e do Lucas. O que vocês querem fazer?

– Toma papai! – diz Lucas, estendendo a mãozinha. – Fica com minhas moedinhas pá compá pilulito, picolé, tudo que você quiser!

Cíntia arregala os olhos e abre um lindo sorriso:

– Eu trouxe esta flor pra você, papai. Vou cantar uma música dos pais que aprendi na escola…

E eles ficaram ali por infinitos minutos, o pai emocionado com cada gesto espontâneo de carinho dos filhos, numa deliciosa festa de amor…

O Senhor escreveu no meu coração esta história, para me ensinar que assim também os filhos de Deus querem expressar seu amor a Ele, mas são impedidos pelos “irmãos mais velhos”, pessoas que se consideram mais maduras espiritualmente e pensam que isto lhes dá poder de juiz. Ele tem me ensinado a não vetar as pessoas que desejam homenagear a Deus Pai e seu filho Jesus nas reuniões, elas devem ter oportunidade de participação, sem acepção. Muitas pessoas que procuraram Jesus foram rechaçadas, rejeitadas por homens, sobretudo pelos fariseus. Oposta foi a atitude do Senhor:

  • A adoração mais indigna para os homens foi plenamente aceita por Jesus: a de Maria de Betânia, mulher considerada pecadora – Jo. 12.
  • O homem mais rejeitado por ser visto como indigno pecador recebeu o amor incondicional de Jesus: Zaqueu – Luc. 19.
  • A menor e mais desprezada oração foi aceita por Jesus: a do coletor de impostos – Luc. 18.
  • As pessoas consideradas menos importantes, rejeitadas até pelos discípulos, receberam o colo e a bênção de Jesus: as crianças – Luc. 18.
  • O louvor considerado mais impróprio pelos religiosos foi aceito por Jesus: das crianças de Jerusalém – Mat. 21.
  • A menor oferta para os homens foi considerada por Jesus a maior em qualidade: a da viúva, que deu apenas duas moedinhas – Mar. 13.
  • A mulher condenada à morte por ser considerada a pior pecadora recebeu o perdão de Jesus: a mulher adúltera – Jo. 8.
  • Os homens considerados mais ignorantes e indignos foram cheios de sabedoria e usados pelo poder de Deus: os doze apóstolos – Atos 1 a 4.

Não me cabe julgar a competência de alguém para cantar, orar, ou qualquer outra manifestação de adoração. Julgaria segundo a aparência e a arte, mas os critérios que o Pai coloca são interiores: que o adoremos “em espírito e em verdade” (João 4:23,24). Não devemos submeter nossa adoração a julgamento humano, porque nossa platéia não são as pessoas, mas o Senhor.